“Ao vê-lo, o suor em minhas mãos já aumentou instantaneamente. Não que isso fosse algo incomum, mas, naquela vez, era diferente. As mãos suavam de surpresa. Ou talvez fosse a paixão, a admiração pela pessoa tão despertadora dos meus sentidos que estava na minha frente. A barba por fazer, o cabelo ruivo, o queixo másculo que contrastava com o nariz afilado… Não sei qual destes elementos me deixava mais boquiaberta. Talvez não fosse nenhum deles; talvez fosse o modo como ele se mexia, ou a maneira como permanecia em pé à procura de alguém. Talvez fosse simplesmente ele. Não importava que ele tivesse uma cerveja na mão e um presente (sem embrulho) na outra. Talvez isso o deixasse ainda mais atraente. Não importava que ele usasse a camisa com dois botões abertos e os tênis desamarrados. Também não importava a mancha (de café, provavelmente) na sua calça, ou o amarrotado do seu casaco. Tudo bem que ele tivesse chegado com uma hora e meia de atraso. Eu estava feliz apenas pelo fato de ele estar ali. Imersa nos meus pensamentos, relevando as pessoas que comiam, bebiam e conversavam ao meu redor, eu me dei conta de que minhas mãos continuavam a suar. E aí ele olhou para mim. E sorriu. Primeiro com os olhos, depois com a boca. E veio na minha direção. Sorriu mais uma vez antes de começar a falar:
– Desculpe pelo atraso.
– Não tem problema. Se não atrasasse, não seria você.
Ele olhou para baixo, tentou alinhar o cabelo e perguntou:
– Você ainda esperava que eu viesse?
– Eu sempre espero.
– Ainda bem que eu não te decepcionei.
Estava tão imersa na profundidade dos seus olhos castanhos, que me assustei quando fui chamada.
– Já volto.
Demorei a voltar. Só tive a oportunidade de ficar frente a frente com ele duas horas depois.
– Você demorou.
Assenti. Não era de bom tom tê-lo deixado esperando por tanto tempo.
– Desculpe. Eu te procurei, mas não consegui…
– Me achar?
– Sim. Mas procurei o tempo todo.
– Eu sei. Estive te observando… O tempo todo.
Fomos interrompidos pelo último grupo a deixar o apartamento. Restamos só nós dois.
– Quer dizer que você me observou?
– Acompanhei todos os seus passos. Te vi agradecendo a todos…
– Só ainda não agradeci a você.
– Agradecer pelo quê? Nem te dei meu presente, ainda.
Notei que ele continuava com o presente desembrulhado nas mãos. Notei também que não fazia ideia do que era. Ele me entregou. Abri a sacola. Era um CD. Claro que era.
– Pra compensar todos aqueles que eu te pedi emprestado.
– Não precisava compensar nada.
– Na verdade, foi pra você parar de pedir o meu emprestado.
Ele riu timidamente.
– Achei que você não se importasse.
– Não me importo, mesmo. É só que eu não podia me lembrar de você ouvindo as canções, se você estava com ele.
– Desculpe.
– Mas eu me lembrava de você, de qualquer forma.
Ele pegou o CD das minhas mãos e o colocou no player. Direto na sétima canção.
– A sua preferida.
Meu coração disparou. Tive a clara impressão de que ele ouviu. Antes da música começar, ele sussurrou novamente ao meu ouvido:
– É oficial. Agora eu só aceito a condição de ter você só pra mim.
Acomodei o rosto nos seus ombros. Enxuguei mãos e olhos (emocionados) nas suas costas e permaneci encolhida no seu abraço até a música terminar. Olhei nos seus olhos e respondi:
– Condição aceita.
Ele sorriu. E enrubesceu.
– Me dá um minuto? Vou tirar esse salto, trocar de roupa.
– Vá. Mas não demore, dessa vez.
– Um minuto. Vou só ao armário e…
– Abre os teus armários, eu estou a te esperar.
Deixei a troca de roupa pra lá. Os armários foram abertos. Mas essa já era outra canção.” Luiza Gadelha (via simplesdecoracao)